A História do Saint John Museum
Situado no coração fortificado de Valeta, em Malta, o Saint John Museum emergiu como uma instituição formal em 1975. O museu preserva um vasto conjunto de mais de 3.000 itens que traçam a longa presença dos Cavaleiros de São João na ilha. Esta coleção funciona como um repositório da história material da Ordem, capturando a intersecção entre a devoção religiosa e o poder político detido pela ordem militar durante o seu domínio sobre Malta.
A existência do museu está intrinsecamente ligada à presença contínua dos Cavaleiros Hospitalários no Mediterrâneo. Como o centro religioso da Ordem, o local transformou-se de uma simples igreja conventual, estabelecida em 1573, num complexo sítio de memória histórica. O museu fornece o contexto necessário para os artefactos que outrora adornaram a vida litúrgica quotidiana e as funções cerimoniais dos Cavaleiros.
A profundidade da coleção reflete-se na variedade de objetos preservados entre as suas paredes, que vão desde paramentos sagrados a pinturas de importância monumental. Entre as obras notáveis que pertencem à esfera de influência do museu, destacam-se:
- O Decapitação de São João Batista, c. 1608 - Caravaggio
- São Jerónimo a Escrever - Caravaggio
A Arquitetura da Co-Catedral de São João
O exterior da catedral, concebido por Girolamo Cassar entre 1573 e 1578, apresenta uma digna fachada de calcário que esconde a complexidade que pulsa em seu interior. Originalmente concebida em 1573 como uma simples igreja conventual, a estrutura evoluiu através de séculos de modificações. A forma atual manifesta-se como uma fusão harmoniosa entre as fundações manieristas e os exuberantes ornamentos Barrocos. Esta sobreposição de estilos cria um espaço onde a sobriedade do design inicial encontra a intensidade das adições posteriores.
No interior, a arquitetura transita para uma sensação de verticalidade e luz. Tetos abobadados e imponentes são adornados com nuvens revoltas e figuras celestiais, conduzindo o olhar para cima, em direção a um céu simulado. Cada superfície é trabalhada com intrincados estuques e ornamentação dourada. Estes detalhes capturam a luz, criando um jogo constante de sombras e brilho que percorre todas as superfícies do interior.
As Coleções de Prata e Têxteis
A Coleção de Prata abriga uma variedade de objetos litúrgicos e itens cerimoniais que narram a história da fé. Estas peças, que incluem cálices, relicários e ostensórios, refletem tanto a riqueza material quanto a profunda devoção da Ordem. O trabalho em metal permanece como uma presença silenciosa e solene dentro do museu, sustentando o peso da tradição religiosa através da sua forma e função.
Um conjunto extraordinário de tapeçarias flamengas adorna o espaço, conferindo-lhe uma aura de grandiosidade. Projetadas por Peter Paul Rubens, estas vinte e nove peças foram encomendadas ao tecelão Judocus de Vos, em Bruxelas. Cada peça possui seis metros de altura, e a escala monumental destes têxteis cria uma sensação de envolvimento, sendo a sua presença sentida na forma como ocupam o espaço vertical do salão.
Obras-Primas da Coleção
A presença de Michelangelo Merisi da Caravaggio define o peso espiritual deste espaço. Sua obra, A Decapitação de São João Batista, instalada em 1608, permanece como o foco central do oratório. A tela utiliza contrastes profundos entre luz e sombra para retratar a realidade visceral do martírio. Próximo a ela, São Jerônimo Escrevendo oferece um estudo distinto do caráter humano, apresentando uma figura de pele bronzeada e um torso pálido e nu. A pintura inclui o brasão de armas de Malaspina no canto inferior direito.
As paredes e os tetos carregam a narrativa do santo padroeiro através do pincel de Mattia Preti. Suas pinturas retratam diversos episódios da vida de São João Batista, utilizando composições dinâmicas para preencher os vazios arquitetônicos. Estas obras coexistem com paramentos sagrados que refletem a devoção material da Ordem. Estas vestes são confeccionadas em cetim de seda e intrincadamente bordadas com fios de ouro e prata, frequentemente apresentando motivos florais que carregam significados simbólicos específicos.
- A Decapitação de São João Batista, c. 1608 - Caravaggio
- São Jerônimo Escrevendo - Caravaggio
O Piso de Mármore e as Artes Decorativas
O chão da catedral revela um mosaico complexo de mármore policromático, uma obra que transcende a mera funcionalidade para se tornar uma verdadeira paisagem funerária. Sob os nossos pés, a superfície incrustada é pontuada por lápides de design intrincado que marcam os repousos eternos dos Cavaleiros de São João. Cada pedra carrega o peso de uma história individual, exibindo brasões de armas e iconografias específicas associadas aos cavaleiros ali sepultados. Estes marcadores criam uma ligação tangível com a linhagem militar e política de Malta, transformando o solo em um arquivo de memória viva.
Para além do mármore que sustenta o caminhar, a coleção abrange diversas esculturas e artes decorativas que povoam este espaço sagrado. Entre estas preciosidades, destacam-se três conjuntos de livros de coro, considerados alguns dos manuscritos mais belamente executados da ilha. Estes volumes em pergaminho, adornados com iniciais iluminadas, são testemunhos da profunda devoção artística da Ordem. A presença destes objetos, em harmonia com as diversas obras escultóricas, reflete uma longa e rica história de vida litúrgica e cerimonial que ecoa entre as paredes da co-catedral.
Preservação Recente e Projetos Museológicos
A salvaguarda deste local sagrado repousa sobre a Fundação da Co-Catedral de São João, estabelecida em 2001 com o propósito de administrar e conservar tanto a catedral quanto o seu museu. Este enquadramento institucional é o que garante que a própria matéria física e os tesouros acumulados ao longo dos séculos permaneçam intactos. Nas últimas décadas, têm sido empenhados esforços focados na manutenção da integridade estrutural do edifício através de restauros sistemáticos. Entre 2008 e 2010, as laterais da catedral foram alvo de trabalhos de restauro, seguidos por um projeto mais abrangente dedicado ao exterior, que decorreu entre 2014 e 2017.
Para além da manutenção estrutural do calcário e da alvenaria, o Novo Projeto do Museu representa um avanço significativo na forma como a coleção é experienciada. Esta iniciativa visa exibir partes do acervo num espaço dedicado, permitindo um encontro mais íntimo e próximo com os objetos guardados no museu. Projetos desta natureza asseguram que a presença histórica dos artefactos da Ordem seja preservada para a contemplação das gerações futuras.
